“Preparar-se para a ressurreição é viver com consciência, para que a morte não seja necessária para ressignificar a dor.”
- Raquel Costa

- 4 de abr.
- 3 min de leitura
A Páscoa lutando para ter significado.
Por Raquel Silva Costa.
Acredito que esse texto não surgiu ao acaso em minha mente nos primeiros raios da manhã de uma sexta-feira da Paixão. Porém, irei me valer de seu simbolismo para podermos, por uns instantes, pensar sobre isso.
Assim como todos os cristãos ao redor do mundo param para refletir sobre a simbologia deste dia, também me coloquei em silêncio, em meio à vida cotidiana barulhenta, e uma frase ficou latente em minha mente:
“Preparar-se para a ressurreição é viver com consciência, para que a morte não seja necessária para ressignificar a dor.”
Como ser humano que busca melhorias para si mesma e para quem está comprometido no mesmo caminho, compreendo que o que nós somos e o que fazemos ressoa e será contemplado, de uma forma ou de outra, na vida do outro. Afinal, o ser humano é um animal que vive em comunidade, embora alguns não se reconheçam integrados à natureza. Mas esse não é o ponto central deste texto ficará para o próximo.
Se o psiquismo reage às crises internas, as sociedades também reagem às crises externas.Acredito que, no momento atual, o nosso sistema social e socioeconômico está atravessando uma crise em que a identidade ideológica de algumas das grandes potências parece instável, e isso reverbera diretamente no inconsciente coletivo. Nós, como cidadãos, sofremos os efeitos dessas disputas de egos inflados entre líderes que, por vezes, esquecem que a guerra nunca foi a melhor solução para as dificuldades sociais que encontramos ao redor do mundo pelo contrário.
Trago aqui a força do inconsciente coletivo, conceito amplamente trabalhado por Jung em suas obras, que lançou luz sobre as grandes e devastadoras guerras anteriores e sobre aquilo que se aprendeu com suas vitórias e fracassos. Os países que sofreram perdas aprenderam, ao longo dos anos, a reconstruir-se de dentro para fora, reorganizando suas estruturas e fortalecendo suas bases, para que, em momentos conflituosos como o atual, possam ocupar posições de respeito que outrora não alcançaram.
Mas esse exemplo não se limita às nações ele pode ser aplicado à vida de cada um de nós.
A resiliência individual não é diferente da resiliência de um coletivo. O efeito benéfico desse processo de reorganização em uma sociedade se reflete nas decisões tomadas a pequeno, médio e longo prazo, quando há capacidade de autopreservação sem perda da autonomia de seus valores, sejam eles pessoais ou culturais, sempre sustentados de forma ética.
Segundo Freud, podemos escolher nos fortalecer ou nos enfraquecer diante das dificuldades. Podemos, inclusive, repetir caminhos que nos conduzem a mais dor, mais perdas, mais angústia esse movimento psíquico foi denominado por ele como pulsão de morte. No entanto, ao contrário do que muitos pensam, a angústia também pode funcionar, inconscientemente, como um motor que impulsiona a busca por sentido e elaboração do sintoma.
No processo evolutivo, a pulsão primordial é a da pulsão de vida, que Freud descreveu como a força motriz que conduz o ser humano, de forma inconsciente, em direção à consciência. Essa força nos lembra que a existência não é feita apenas de angústias, mas também de momentos de contemplação, aprendizado e crescimento.
Não se trata de escolher entre extremos.Não se trata de eliminar o conflito.Trata-se de sustentar o equilíbrio. É aprender a viver apesar das incertezas, das crises angustiantes tão presentes nos tempos atuais e também das alegrias que nos fortalecem e nos conectam à vida. É sustentar essas experiências nos seus momentos mais intensos, retornando sempre ao nosso próprio eixo.
Viver conscientemente cada minuto no presente é um exercício de responsabilidade interior. Significa tomar como referência os ensinamentos do Cristo não apenas como figura religiosa, mas como símbolo de transformação, de renascimento e de reconciliação consigo mesmo e com o outro. É trabalhar na intimidade psíquica para que aquilo que aprendemos reverbere no coletivo, permitindo que o inconsciente encontre integração e que nossas ações contribuam para o bem comum.
Hoje o mundo pede equilíbrio.Equilíbrio nas decisões.Equilíbrio nas relações.Equilíbrio entre o que sentimos, o que pensamos e o que fazemos.
Porque menos guerra por fora começa, inevitavelmente,com menos conflito por dentro.


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